No princípio da colonização do Brasil, a evangelização realizava-se de forma itinerante, numa espécie de peregrinação na qual os padres missionários se deslocavam ocasionalmente dos povoados coloniais até os indígenas. Após algum tempo, porém, os padres da Companhia de Jesus dedicaram-se a reunir, em um mesmo local, grandes grupos de indígenas, com o objetivo de convertê-los e “civilizá-los”. Esses locais, chamados de aldeamentos ou reduções, chegaram a reunir centenas, talvez milhares, de indígenas, e se tornaram muitas vezes povoados relativamente urbanizados, prósperos e autossuficientes. No entanto, em meados do século XVII,
à voz corrente de que os paulistas vinham dar sobre essa redução, os índios deram princípio à construção de um pequeno valo ou cerco, o qual, contudo, não pôde aprontar-se, por causa da pressa com que os inimigos avançavam. No dia de São Francisco Xavier do ano de 1636, quando se estava celebrando a festa com missa e sermão, 140 castelhanos* do Brasil, acompanhados de 150 tupis entraram naquele “pueblo”. Vinham todos otimamente armados com escopetas e se achavam vestidos com gibões […], pelo que o soldado está protegido dos pés à cabeça e peleja com segurança contra as setas. […] Havia se acolhido à igreja a gente do povo, pois a sua parede servia também de continuação ao valo ou cerco não terminado. […] Pelejaram todos durante seis horas, ou seja, desde as oito da manhã até as duas da tarde. Feriram os paulistas a um dos padres com um balaço na cabeça. Atravessaram o braço de um dos irmãos e ao outro deixaram-no vulnerado. *a expressão deve ser lida aqui como sinônimo de “homens brancos”.
MONTOYA, A.R. Conquista espiritual feita pelos religiosos da Companhia de Jesus nas províncias do Paraguai Paraná, Uruguai e Tape. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1997. p. 274. Primeira edição: 1639. Adaptado.
No centro da querela entre colonos e jesuítas, estava a
- A) liberdade dos índios, uma vez que os bandeirantes buscam libertar os indígenas da opressão dos religiosos da Companhia de Jesus, aliando-se aos povos originários na defesa de suas terras e pela preservação de seus costumes e tradições.
- B) defesa dos termos apresentados no Tratado de Madri, uma vez que os jesuítas se alinharam à Coroa portuguesa para defender as ideias do Marquês de Pombal com relação à tutela dos índios.
- C) disputa pelo uso da força de trabalho dos povos originários, pois, enquanto os colonos consideravam que a função dos padres era apaziguar os indígenas para que eles pudessem servir ao trabalho, os padres lutavam pelo direito de desenvolver uma catequese, segundo os interesses da Companhia de Jesus.
- D) desocupação do território espanhol, na medida em que as lideranças jesuíticas convenceram a Coroa portuguesa a manter a área dos Sete Povos das Missões e restaurar o domínio sobre a região de Colônia do Sacramento, o que foi feito em 1751.
- E) unificação das Coroas Ibéricas, defendida pelos jesuítas e contestada pelos colonos, os quais acabaram por perder a disputa em 1640, quando Portugal e Espanha se unificaram na chamada União Ibérica, que durou até 1750.
Resposta:
A alternativa correta é letra C) disputa pelo uso da força de trabalho dos povos originários, pois, enquanto os colonos consideravam que a função dos padres era apaziguar os indígenas para que eles pudessem servir ao trabalho, os padres lutavam pelo direito de desenvolver uma catequese, segundo os interesses da Companhia de Jesus.
Gabarito: LETRA C.
A questão aborda o início da colonização do Brasil, com a prática da evangelização dos povos originários sendo feita de maneira itinerante pelos padres missionários da Companhia de Jesus, os quais passaram a fomentar o desenvolvimento de grandes aldeamentos ou reduções com o objetivos de converter e integrar os indígenas à sociedade colonial. Ademais, o texto elencado aborda a atuação conflitiva de grupos bandeirantes, a partir de meados do século XVII, em ataques aos povoados com o intuito, geralmente, de captação de mão de obra.
A partir disso, pergunta-se acerca do ponto central da querela entre colonos e jesuítas, fator que está corretamente elencado na LETRA C, "disputa pelo uso da força de trabalho dos povos originários, pois, enquanto os colonos consideravam que a função dos padres era apaziguar os indígenas para que eles pudessem servir ao trabalho, os padres lutavam pelo direito de desenvolver uma catequese, segundo os interesses da Companhia de Jesus". Isso porque de fato havia uma disputa entre colonos e jesuítas sobre o papel dos indígenas: os colonos desejavam utilizar os indígenas como mão de obra, enquanto os jesuítas lutavam pelo direito de catequizá-los. Assim, vejamos as demais alternativas para identificar seus erros.
a) liberdade dos índios, uma vez que os bandeirantes buscam libertar os indígenas da opressão dos religiosos da Companhia de Jesus, aliando-se aos povos originários na defesa de suas terras e pela preservação de seus costumes e tradições.
INCORRETO. Os bandeirantes não buscavam libertar os indígenas da opressão dos jesuítas, nem defender suas terras, costumes e tradições. Pelo contrário, esses grupos atacavam aldeamentos jesuítas para a captar os indígenas e forçá-los ao trabalho.
b) defesa dos termos apresentados no Tratado de Madri, uma vez que os jesuítas se alinharam à Coroa portuguesa para defender as ideias do Marquês de Pombal com relação à tutela dos índios.
INCORRETO. O Tratado de Madri de 1750 foi um acordo que visava estabelecer os limites territoriais entre as colônias portuguesas e espanholas na América do Sul. Em termos da tutela dos índios, defendiam-se políticas que visavam sua integração às estruturas coloniais portuguesas, o que não era sintetizado pela atuação dos colonos nem necessariamente representava uma aliança entre jesuítas e Coroa portuguesa.
d) desocupação do território espanhol, na medida em que as lideranças jesuíticas convenceram a Coroa portuguesa a manter a área dos Sete Povos das Missões e restaurar o domínio sobre a região de Colônia do Sacramento, o que foi feito em 1751.
INCORRETO. A questão dos aldeamentos jesuíticos não estava diretamente relacionada à desocupação do território espanhol. A manutenção dos Sete Povos das Missões e a restauração do domínio sobre Colônia do Sacramento ocorreram em um contexto de disputas coloniais entre Portugal e Espanha (século XVIII) e não estavam diretamente ligadas aos aldeamentos jesuíticos.
e) unificação das Coroas Ibéricas, defendida pelos jesuítas e contestada pelos colonos, os quais acabaram por perder a disputa em 1640, quando Portugal e Espanha se unificaram na chamada União Ibérica, que durou até 1750.
INCORRETO. Os jesuítas não estavam diretamente envolvidos na defesa da unificação das coroas ibéricas, mas sim na manutenção e expansão de suas atividades missionárias. Além disso, a União Ibérica foi mais uma imposição política do que uma vontade compartilhada entre os dois reinos.
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