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                                              Lembrança       Lembro-me de que ele só usava camisas brancas. Era um velho limpo e eu gostava dele por isso. Eu conhecia outros velhos e eles não eram limpos. Além disso, eram chatos. Meu avô não era chato. Ele não incomodava ninguém. Nem os de casa ele incomodava. Ele quase não falava. Não pedia as coisas a ninguém. Nem uma travessa de comida na mesa ele gostava de pedir. Seus gestos eram firmes e suaves e quando ele andava não fazia barulho.       Ficava no quartinho dos fundos e havia sempre tanta gente e tanto movimento na casa que às vezes até se esqueciam da existência dele. De tarde costumava sair para dar uma volta. Ia só até a praça da matriz que era perto. Estava com setenta anos e dizia que suas pernas estavam ficando fracas. Levava-me sempre com ele. Conversávamos mas não me lembro sobre o que conversávamos. Não era sobre muita coisa. Não era muita coisa a conversa. Mas isso não tinha importância. O que gostávamos era de estar juntos.       Lembro-me de que uma vez ele apontou para o céu e disse: ‘olha’. Eu olhei. Era um bando de pombos e nós ficamos muito tempo olhando. Depois ele voltou-se para mim e sorriu. Mas não disse nada. Outra vez eu corri até o fim da praça e lá de longe olhei para trás. Nessa hora uma faísca riscou o céu. O dia estava escuro e uma ventania agitava as palmeiras. Ele estava sozinho no meio da praça com os braços atrás e a cabeça branca erguida contra o céu. Então eu pensei que meu avô era maior que a tempestade.      Eu era pequeno, mas sabia que ele tinha vivido e sofrido muita coisa. Sabia que cedo ainda a mulher o abandonara. Sabia que ele tinha visto mais de um filho morrer. Que tinha sido pobre e depois rico e depois pobre de novo. Que durante sua vida uma porção de gente o havia traído e ofendido e logrado. Mas ele nunca falava disso. Nenhuma vez o vi falar disso. Nunca o vi queixar-se de qualquer coisa. Também nunca o vi falar mal de alguém. As pessoas diziam que ele era um velho muito distinto.      Nunca pude esquecer sua morte. Eu o vi, mas na hora não entendi tudo. Eu só vi o sangue. Tinha sangue por toda parte. O lençol estava vermelho. Tinha uma poça no chão. Tinha sangue até na parede. Nunca tinha visto tanto sangue. Nunca pensara que, uma pessoa se cortando, pudesse sair tanto sangue assim. Ele estava na cama e tinha uma faca enterrada no peito. Seu rosto eu não vi. Depois soube que ele tinha cortado os pulsos e aí cortado o pescoço e então enterrado a faca. Não sei como deu tempo dele fazer isso tudo, mas o fato é que ele fez. Tudo isso. Como, eu não sei. Nem por quê.        No dia seguinte eu ainda tornei a ver a sua camisa perto da lavanderia e pensei que mesmo que ela fosse lavada milhares de vezes nunca mais poderia ficar branca. Foi o único dia em que não o vi limpo. Se bem que sangue não fosse sujeira. Não era. Era diferente.                                                 (VILELA, Luiz. Tarde da noite. 6. Ed. São Paulo: Ática, 2000.)  Em: “O que gostávamos era de estar juntos.” A divisão correta dos elementos formadores da palavra em destaque é

                                              Lembrança

      Lembro-me de que ele só usava
camisas brancas. Era um velho limpo e eu
gostava dele por isso. Eu conhecia outros
velhos e eles não eram limpos. Além disso,
eram chatos. Meu avô não era chato. Ele
não incomodava ninguém. Nem os de casa
ele incomodava. Ele quase não falava. Não
pedia as coisas a ninguém. Nem uma
travessa de comida na mesa ele gostava de
pedir. Seus gestos eram firmes e suaves e
quando ele andava não fazia barulho.

      Ficava no quartinho dos fundos e
havia sempre tanta gente e tanto movimento
na casa que às vezes até se esqueciam da
existência dele. De tarde costumava sair
para dar uma volta. Ia só até a praça da
matriz que era perto. Estava com setenta
anos e dizia que suas pernas estavam
ficando fracas. Levava-me sempre com ele.
Conversávamos mas não me lembro sobre o
que conversávamos. Não era sobre muita
coisa. Não era muita coisa a conversa. Mas
isso não tinha importância. O que
gostávamos era de estar juntos.

      Lembro-me de que uma vez ele
apontou para o céu e disse: ‘olha’. Eu olhei.
Era um bando de pombos e nós ficamos
muito tempo olhando. Depois ele voltou-se
para mim e sorriu. Mas não disse nada.
Outra vez eu corri até o fim da praça e lá de
longe olhei para trás. Nessa hora uma faísca
riscou o céu. O dia estava escuro e uma
ventania agitava as palmeiras. Ele estava
sozinho no meio da praça com os braços
atrás e a cabeça branca erguida contra o céu. Então eu pensei que meu avô era maior
que a tempestade.

      Eu era pequeno, mas sabia que ele
tinha vivido e sofrido muita coisa. Sabia que
cedo ainda a mulher o abandonara. Sabia
que ele tinha visto mais de um filho morrer.
Que tinha sido pobre e depois rico e depois
pobre de novo. Que durante sua vida uma
porção de gente o havia traído e ofendido e
logrado. Mas ele nunca falava disso.
Nenhuma vez o vi falar disso. Nunca o vi
queixar-se de qualquer coisa. Também
nunca o vi falar mal de alguém. As pessoas
diziam que ele era um velho muito distinto.

      Nunca pude esquecer sua morte. Eu
o vi, mas na hora não entendi tudo. Eu só vi
o sangue. Tinha sangue por toda parte. O
lençol estava vermelho. Tinha uma poça no
chão. Tinha sangue até na parede. Nunca
tinha visto tanto sangue. Nunca pensara
que, uma pessoa se cortando, pudesse sair
tanto sangue assim. Ele estava na cama e
tinha uma faca enterrada no peito. Seu rosto
eu não vi. Depois soube que ele tinha
cortado os pulsos e aí cortado o pescoço e
então enterrado a faca. Não sei como deu
tempo dele fazer isso tudo, mas o fato é que
ele fez. Tudo isso. Como, eu não sei. Nem
por quê.  

      No dia seguinte eu ainda tornei a ver
a sua camisa perto da lavanderia e pensei
que mesmo que ela fosse lavada milhares
de vezes nunca mais poderia ficar branca.
Foi o único dia em que não o vi limpo. Se
bem que sangue não fosse sujeira. Não era.
Era diferente.

                                                (VILELA, Luiz. Tarde da noite. 6. Ed. São Paulo: Ática, 2000.) 

Em:

“O que gostávamos era de estar juntos.” A
divisão correta dos elementos formadores
da palavra em destaque é

Resposta:

A alternativa correta é B)

Resposta

A resposta certa é B) gost – a – va – mos. A palavra “gostávamos” é formada pelo radical “gost” mais o sufixo “-ávamos”, que é a conjugação do verbo “gostar” na primeira pessoa do plural do pretérito imperfeito.

É importante notar que a análise morfológica das palavras é fundamental para a compreensão do funcionamento da língua portuguesa. A separação correta dos elementos formadores de uma palavra pode ajudar a evitar erros de escrita e a entender melhor o significado das palavras.

Além disso, é fundamental ler e analisar textos literários como o trecho apresentado, que nos permite refletir sobre a vida e a morte, sobre a importância das relações humanas e sobre a forma como as pessoas lidam com as dificuldades.

O texto apresentado é uma lembrança do avô do narrador, que destaca a sua limpidez, a sua quietude e a sua distinção. O avô é mostrado como uma pessoa que não incomoda ninguém, que não pede nada a ninguém e que tem gestos firmes e suaves.

A morte do avô é apresentada de forma dramática, com a descrição do sangue por toda parte e a faca enterrada no peito. A cena é chocante e nos faz refletir sobre a forma como as pessoas lidam com as dificuldades e sobre a importância de estar presente nos momentos difíceis.

O texto também destaca a importância da memória e da lembrança. O narrador se lembra do avô e de suas características, e essa lembrança é fundamental para ele.

Em resumo, a análise morfológica das palavras é fundamental para a compreensão do funcionamento da língua portuguesa, e a leitura e análise de textos literários podem nos ajudar a refletir sobre a vida e a morte, sobre as relações humanas e sobre a importância da memória e da lembrança.

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